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Como abrir uma ótica: o que você precisa saber

Para abrir uma ótica, você precisa de CNPJ com o CNAE 4774-1/00, licença da vigilância sanitária e um óptico registrado como responsável técnico.

10 min de leitura
Neste artigo
  1. Qual é o CNAE da ótica?
  2. Qual regime de impostos escolher?
  3. Como funciona a licença sanitária da ótica?
  4. O que a ótica pode e não pode fazer?
  5. Quais regras de consumo valem para a ótica?
  6. Quanto a ótica precisa vender para se pagar?
  7. Quais parceiros escolher logo no começo?
  8. Checklist para levar às conversas
  9. Onde o LinceIA entra
  10. Perguntas frequentes

Para abrir uma ótica, você precisa de um CNPJ com o CNAE 4774-1/00, da licença da vigilância sanitária e de pelo menos um óptico registrado como responsável técnico, como exige o Decreto 24.492/1934. A prefeitura pode pedir alvará, e as contas precisam fechar antes de abrir a porta.

Abrir uma ótica não é como abrir uma loja de roupas. Óculos de grau são um produto de saúde, e por isso a ótica tem regras que outros comércios não têm: licença da vigilância sanitária, um profissional responsável e limites claros sobre o que pode ser feito dentro da loja.

Este guia junta o que dá para confirmar em fontes oficiais, com os links para você conferir. Ele não substitui o contador nem a vigilância sanitária da sua cidade, que têm a palavra final. Mas ajuda a chegar nessas conversas sabendo o que perguntar.

1. Qual é o CNAE da ótica?

Toda empresa é registrada com um código de atividade, o CNAE. Para a ótica, o código é o 4774-1/00 — Comércio varejista de artigos de óptica, segundo a classificação oficial do IBGE.

Ele cobre a venda ao consumidor de óculos, armações, lentes para óculos, lentes de contato, binóculos e produtos de limpeza para óculos.

Se a sua ideia inclui um laboratório próprio, o código é outro. A surfaçagem e a lapidação de lentes são a subclasse 3250-7/09 — Serviço de laboratório óptico. A fabricação de óculos, armações e lentes é a 3250-7/07 — Fabricação de artigos ópticos. Converse com o contador sobre quais códigos fazem sentido para o que a loja vai fazer de verdade.

O pedido de CNPJ começa pelos serviços da Redesim, no gov.br. Na prática, quem cuida disso costuma ser o contador.

2. Qual regime de impostos escolher?

A maioria das óticas pequenas começa no Simples Nacional. Pela Lei Complementar 123, o comércio fica no Anexo I, com alíquota que começa em 4% para quem fatura até R$ 180 mil em 12 meses e sobe por faixas a partir daí.

O que conta para o seu preço é a alíquota efetiva, que depende do faturamento. Uma ótica que fatura R$ 600 mil por ano paga perto de 7,2%. O artigo sobre como calcular o preço de venda de óculos mostra a conta e como ela entra no preço.

A escolha do regime (e se ele é o melhor para o seu caso) é com o contador. Leve a ele uma estimativa de faturamento e de folha de pagamento.

3. Como funciona a licença sanitária da ótica?

Aqui está a principal diferença entre a ótica e outros comércios.

A regra federal que ainda vale para o setor é o Decreto 24.492, de 1934. Ele foi revogado em 1990 e voltou a valer em 1991. Pelo texto:

  • A loja precisa de autorização da autoridade sanitária para vender lentes de grau, pedida pelo proprietário ou sócio (art. 5º).
  • É obrigatório ter pelo menos um óptico registrado como responsável (art. 6º). O decreto chama esse profissional de "ótico prático".
  • O óptico assina um termo de responsabilidade técnica junto com o dono e responde junto por infrações (art. 10).
  • Um óptico não pode ser responsável por mais de uma ótica (art. 11).
  • As receitas aviadas são registradas em um livro próprio, que a vigilância pode pedir para ver (arts. 6º, 7º e 8º).

O registro do óptico também está no decreto: ele é feito na autoridade sanitária, depois de um exame, e o registro feito num órgão estadual vale só dentro daquele estado (art. 4º).

O decreto também lista um estoque mínimo de lentes e os aparelhos que a loja deveria ter. É um texto de 1934, e quem fiscaliza no dia a dia são as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais, que podem ter normas próprias. Por isso, antes de assinar o aluguel, procure a vigilância sanitária da sua cidade e pergunte:

  • quais documentos ela pede para a licença;
  • qual formação e qual registro ela aceita para o responsável técnico;
  • quais exigências de estrutura, equipamento e registro de receitas valem hoje;
  • se há prazo de vistoria antes de começar a funcionar.

Do lado da Anvisa, a Instrução Normativa nº 66/2020 lista as atividades sujeitas à vigilância sanitária por grau de risco, e coloca o comércio varejista de artigos de óptica (4774-1/00) no nível de risco II, médio risco (Anexo II). A própria instrução diz que essa lista só se aplica onde o estado ou o município não tem classificação própria (art. 7º). É mais um motivo para começar pela vigilância da sua cidade.

A prefeitura também pode exigir alvará ou licença de funcionamento, ou dispensar para atividades de menor risco. A regra é municipal: confira na sua.

4. O que a ótica pode e não pode fazer?

O mesmo decreto traz regras que afetam a rotina do balcão:

  • Lentes de grau só com receita (art. 14). Sem receita, a loja pode trocar por lentes de grau idêntico as que chegaram danificadas, vender lentes protetoras sem grau, consertar armações e trocar armações (art. 15).
  • A ótica não pode ter consultório médico dentro da loja, nem em local de acesso obrigatório por ela (art. 16). O mesmo artigo proíbe a loja de indicar médico que dê vantagens aos clientes dela e de distribuir vales de consulta gratuita ou com desconto.
  • É proibido anunciar exame de vista e manter aparelhos de exame em funcionamento na loja (art. 17).
  • O médico oftalmologista não pode ser dono ou sócio de ótica na cidade onde atende (art. 12).

Optometria: um tema à parte

Os artigos 13 e 14 do decreto foram discutidos no Supremo Tribunal Federal, na ADPF 131. Segundo a Nota Técnica nº 3/2025 do Procon do Ministério Público de Minas Gerais, o STF reconheceu em 2020 que essas regras continuam valendo, e em 2021 decidiu que as restrições não se aplicam a optometristas com formação de nível superior em instituição reconhecida.

A mesma nota trata de pontos que interessam a quem pensa em ter atendimento optométrico junto da ótica, como a separação física entre o consultório e a área de venda e a proibição de condicionar o atendimento à compra de óculos (venda casada, pelo Código de Defesa do Consumidor).

É um assunto com detalhes jurídicos e regras locais. Se esse é o seu plano, procure orientação jurídica e a vigilância sanitária antes de montar o espaço.

5. Quais regras de consumo valem para a ótica?

Duas leis federais aparecem com frequência na rotina de uma ótica:

  • Venda parcelada no crediário próprio. O Código de Defesa do Consumidor, no art. 52, exige informar antes o preço, os juros, o número de parcelas e o total a pagar, e limita a multa por atraso a 2% da parcela. O artigo sobre crediário na ótica detalha isso.
  • Preço diferente por forma de pagamento. A Lei 13.455/2017 permite cobrar preços diferentes conforme o prazo ou a forma de pagamento, desde que o desconto esteja informado em local visível. O artigo sobre taxa da maquininha mostra como usar isso.

6. Quanto a ótica precisa vender para se pagar?

A parte legal resolve se a loja pode abrir. A parte financeira resolve se ela continua aberta.

Quanto a loja vai gastar por mês

Liste as despesas fixas: aluguel, condomínio, salários e encargos, o óptico responsável, contador, energia, internet, sistema, maquininha, marketing e a sua retirada. Esse total é o que a loja precisa pagar todo mês, vendendo ou não.

Quanto ela precisa vender

Com as despesas fixas e a margem média, dá para saber o faturamento mínimo:

Faturamento mínimo = despesas fixas ÷ margem de contribuição

Com R$ 18.000 de despesas fixas e margem de contribuição de 45%, são R$ 40.000 por mês. O artigo sobre ponto de equilíbrio da ótica explica cada parte dessa conta, e a calculadora de ponto de equilíbrio faz com os seus números.

Quanto dinheiro você precisa ter antes

Além da reforma, dos móveis e dos equipamentos, três coisas costumam ser subestimadas:

  • O estoque inicial de armações. Ele vai ficar meses na vitrine antes de girar. Comece com menos modelos e mais profundidade nos que vendem. O guia de controle de estoque para óticas ajuda a planejar.
  • O prazo de recebimento do cartão. Uma venda parcelada em 10 vezes entra aos poucos, ao longo de 10 meses, a não ser que você antecipe e pague por isso.
  • Os primeiros meses abaixo do ponto de equilíbrio. Uma loja nova raramente começa vendendo o necessário. O capital de giro precisa cobrir essa diferença.

Um exemplo com os números acima (R$ 18.000 de despesas fixas, margem de 45%, ponto de equilíbrio de R$ 40.000). Se a loja vende 60% do ponto de equilíbrio no primeiro mês e sobe 10 pontos por mês:

Mês Vendas Margem (45%) Despesas fixas Falta no caixa
1º R$ 24.000 R$ 10.800 R$ 18.000 R$ 7.200
2º R$ 28.000 R$ 12.600 R$ 18.000 R$ 5.400
3º R$ 32.000 R$ 14.400 R$ 18.000 R$ 3.600
4º R$ 36.000 R$ 16.200 R$ 18.000 R$ 1.800
Total R$ 18.000

São R$ 18.000 de capital de giro só para chegar ao ponto de equilíbrio no quinto mês, sem contar o estoque inicial e o dinheiro do cartão que ainda não caiu.

7. Quais parceiros escolher logo no começo?

  • Laboratório. Prazo, qualidade e política de refação pesam mais que o preço da tabela. Peça referências a outras óticas.
  • Fornecedores de armação. Compre por modelo, não pela coleção inteira, e combine prazos de pagamento que caibam no seu caixa.
  • Maquininha. Compare as taxas do parcelado e o prazo de repasse, não só a do débito.
  • Sistema. Ordem de serviço, receita, estoque, caixa e crediário precisam conversar entre si desde o primeiro dia. Começar em planilha é possível; o artigo sobre planilha para ótica mostra até onde ela vai.

Checklist para levar às conversas

Com o contador:

  • CNAE 4774-1/00 e, se houver laboratório, o 3250-7/09;
  • regime de impostos e alíquota efetiva estimada;
  • custo da folha, incluindo o óptico responsável.

Com a vigilância sanitária:

  • documentos e prazo da licença;
  • formação e registro aceitos para o responsável técnico;
  • exigências de estrutura, equipamentos e registro de receitas.

Com a prefeitura:

  • alvará ou licença de funcionamento, e se há dispensa para a atividade.

Onde o LinceIA entra

O LinceIA é um sistema de gestão feito para ótica: ordem de serviço com a receita, estoque por loja, vendas, caixa, crediário e contas a pagar. Para uma loja que está abrindo, a vantagem é começar com tudo no mesmo lugar, em vez de migrar de planilha depois. O guia de primeiros passos mostra como é a configuração inicial.

O LinceIA emite NFC-e e NF-e para lojas do Simples Nacional e do MEI, como adicional de R$ 60/mês por loja. Veja Configurar nota fiscal. O sistema também não substitui o livro ou o registro de receitas que a vigilância sanitária exigir. A lista completa está em o que o LinceIA ainda não faz.

Perguntas frequentes

Qual é o CNAE de uma ótica?

O CNAE da ótica é o 4774-1/00, Comércio varejista de artigos de óptica, na classificação do IBGE. Ele cobre a venda de óculos, armações, lentes para óculos, lentes de contato, binóculos e produtos de limpeza para óculos. Um laboratório próprio de surfaçagem é outra subclasse, a 3250-7/09.

Preciso de um óptico para abrir uma ótica?

Sim. O Decreto 24.492/1934 exige pelo menos um óptico registrado para a loja obter a licença de vender lentes de grau (art. 6º). Ele assina um termo de responsabilidade técnica junto com o dono (art. 10) e não pode ser responsável por mais de uma ótica (art. 11).

A ótica pode ter consultório dentro da loja?

Consultório médico, não: o Decreto 24.492/1934 proíbe consultório médico dentro da loja ou em local que só se alcance passando por ela (art. 16). Para atendimento de optometrista com formação superior, a Nota Técnica nº 3/2025 do Procon-MPMG trata da separação entre o consultório e a área de venda. Confirme com a vigilância sanitária antes de montar o espaço.